domingo, 25 de setembro de 2011

Tabacaria - Fernando Pessoa

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
[...]

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
[...]
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

[...]

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

[...]

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

[...]

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Pequenas adultas

Por Lorrayne França

Maquiagem, chapinha e salto alto são artifícios que fazem parte da rotina não apenas de mulheres adultas. Meninas cada vez mais novas, na faixa dos seis anos, têm usado tais produtos, até sutiãs com bojo fazem parte da brincadeira. A vontade das pequenas de usar os acessórios da mãe não é novidade. O fato é que nos últimos anos o mercado encontrou nessas meninas um público-alvo.

A criança não precisa mais pegar o batom escondido, ela tem batom, lápis, rímel e blush da sua personagem preferida no seu próprio estojo de maquiagem. O salto também pode ser encontrado em diversas alturas e a chapinha nas mais variadas cores. Até sutiã com enchimento para crianças pode ser encontrado nas lojas. Os artifícios usados por mulheres adultas agora servem para maquiar a inocência das crianças.

Contudo, por mais vontade que tenham de ser iguais as suas mães, meninas de seis anos não possuem autonomia para comprar e usar tais produtos se não forem autorizadas por seus responsáveis. As mães se rendem aos pedidos das pequenas, que são diariamente bombardeadas por propagandas dos mais diversos produtos.

Certamente, as mães não querem causar mal às suas filhas. Na maior parte das vezes, elas enxergam tudo como uma grande brincadeira e acham ‘fofo’ ver suas menininhas arrumadinhas como bonecas. Mas além da ‘adultização’ da infância, a brincadeira de hoje pode causar danos a saúde. A pele sensível da criança pode sofrer com as alergias aos produtos de beleza, o salto pode prejudicar a coluna que ainda está em desenvolvimento.

Ao permitir que uma criança use tais produtos, além de pular uma fase, a infância, embutido nas pequenas atitudes e preocupações de uma adulta, também são introduzidos valores deturpados, como o culto exagerado a beleza. Afinal, maquiagem nada mais é do que uma maneira de esconder uma mancha na pele ou uma noite mal dormida. O salto aumenta a estatura das consideradas baixinhas. Os enchimentos dão volume em partes do corpo, assim como as cintas afinam a silhueta.

Independente da vontade das pequenas, cabe ao adulto distinguir o que é ou não adequado uma criança usar. E além da preocupação com a saúde, também é importante avaliar os valores que estão sendo transmitidos. Alcançar os padrões de beleza definidos pela sociedade não é uma tarefa fácil nem para uma adulta. Como será a autoestima de uma pessoa que desde pequena entende que beleza é fundamental?

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Obstinada enxergo ao longe possibilidades radiantes

Bom, é normal se sentir deprê, desmotivada em algum momento, mas não dá pra deixar a peteca cair.
Essa música, na verdade, essa frase "osbtinada enxergo ao longe possibilidades radiantes" me faz muito bem, me dá força, me faz acreditar que vai dar certo...
Sem contar que a música é bem gostosinha de ouvir e cantar e dançar...


Obstinada
Composição : Paulinho Pauleira

Me livrei do seu enredo
Estou de porta aberta
Meu caminho é longe desse seu desamor

Irrequieta
Cabelo ao vento
Pareço um planador

Vejo léguas à minha frente
Fui pro andar de cima
Desatarraxei você das bordas de mim

Absoluta
Milhas adiante
Muito bem melhor assim

Por isso eu nunca pararia
Na parada em que você estaria
Sabe lá no que vai dar
Não me arriscaria
No meu rim, no cotovelo
Na raiz de um fio de cabelo
Que resido do indivíduo
Me desarvoraria
Estou assim
Por isso vim
Contar minha historinha
Livre enfim
Você pra mim, não

Desafio, desvario
Rio de Janeiro
Abre as asas quentes sobre o meu nascer do sol

Espevitada
Examino as frentes
Batuque, praia e rock 'n' rool

Recomeço no tropeço
No sobressalto
Nem eu mesma aturo esse meu estado borbulhante

Obstinada
Enxergo ao longe
Possibilidades radiantes

Por isso eu nunca pararia
Na parada em que você estaria
Sabe lá no que vai dar
Não me arriscaria
No meu rim, no cotovelo
Na raiz de um fio de cabelo
Que resido do indivíduo
Me desarvoraria
Estou assim
Por isso vim
Contar minha historinha
Livre enfim
Você pra mim, não

Desabafo II

Por que será que é tão difícil aceitar as pedras no caminho mesmo tendo consciência que elas na verdade são fundamentais para o nosso crescimento e amadurecimento?

Confio muito, e já tive diversas provas, que mesmo quando as coisas dão errado, no futuro, percebemos que na verdade estava tudo certo. Só estava sendo escrito por linhas tortas...

Tenho metas e estou tentando, com todas as minhas forças, alcança-las. Mas são tantas pedras... mas tantas pedras, que eu tô ficando cansada.

Sou obstinada, a brasileira que não desiste nunca, mas as vezes também tenho dúvidas. Será que estou no caminho certo? De repente as coisas dão errado com o propósito de me fazer desistir mesmo, né? Então, eu busco uma nova alternativa e descubro um novo caminho. Mas como eu posso ter certeza? A única certeza que eu tenho é que ninguém pode me dizer por onde ir... somente eu posso saber que caminho quero seguir e onde quero chegar.

É tão difícil ser responsável pelo próprio destino. Se é que isso existe... ser dona do próprio destino.

Tá bom, né? Desabafei.

Espero que Deus me dê serenidade pra tomar as decisões certas e paciência para aguardar os resultados.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Projeto prevê punições para estudante que desrespeitar professor

Um projeto de Lei que tramita na Câmara dos Deputados prevê punições para estudantes que desrespeitarem professores ou violarem regras éticas e de comportamento nas instituições de ensino. De autoria da deputada Cida Borghetti (PP-PR), a proposta será analisada pelas comissões de Seguridade Social e Família, de Educação e Cultura e de Constituição e Justiça. As informações são da Agência Câmara.

De acordo o projeto de Lei 267/11, em caso de descumprimento das regras escolares, o estudante infrator ficará sujeito a suspensão e, na hipótese de reincidência grave, será encaminhado à autoridade judiciária competente.

A proposta muda o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90) para incluir o respeito aos códigos de ética e de conduta como responsabilidade e dever da criança e do adolescente na condição de estudante.

Segundo a deputada Cida Borghetti, a indisciplina em sala de aula tornou-se algo rotineiro nas escolas brasileiras e o número de casos de violência contra professores aumenta assustadoramente. Ela diz que, além dos episódios de violência física contra os educadores, há casos de agressões verbais, que, muitas vezes, acabam sem punição.

Fonte: Terra

[É inacreditável que seja necessário criar uma lei para que alunos respeitem professores. A sociedade está a cada dia mais perdida. Os alunos estão rebeldes e desrespeitosos, os pais não tem mais autoridade sobre seus filhos e os professores ficam no meio.
Ao sofrerem as agressões dos alunos, os professores convocam a presença dos pais, que escutam as queixas e prometem tomar providências. No dia seguinte o aluno volta mais revoltado. O professor, cansado de remar contra a maré, vai deixando pra lá... E assim caminha a humanidade...]