sábado, 22 de janeiro de 2011

A escola mobilizadora, por Eliezer Pacheco*

Tem sido enfatizada a valorização do professor como forma de melhorar a Educação brasileira. Isto é correto. Sem educadores motivados, é impossível uma Educação de qualidade. Também há a necessidade de Escolas bem estruturadas. Entretanto, os principais problemas se originam do lado de fora das instituições educacionais.

A Escola precisa se ocupar das questões sociais que a atingem. Tais problemas não têm sido tratados como questões concernentes à Educação, quando o são. É difícil ocorrer uma aprendizagem adequada com famílias desagregadas, pais com baixa ou nenhuma escolaridade e com a inexistência de ambientes que sejam favoráveis ao estudo.

Os entraves cruciais da Educação têm de ser enfrentados com políticas de emprego, salário, etc. Nosso país vem enfrentando estas questões e adotando importantes iniciativas na área educacional, cujos resultados, a médio e longo prazo, acontecerão. Estes, contudo, demandam uma geração para se fazerem sentir. Devem os educadores e a sociedade aguardar as consequências destas iniciativas? Parece-nos que não.

As Escolas públicas, além da parte pedagógica, deveriam ter uma coordenação de políticas sociais. A comunidade Escolar deve ser vista como um todo. As Escolas devem compreender a Educação dos pais de seus alunos como parte de suas tarefas, encaminhando-os para a alfabetização, Escolarização e profissionalização.

O debate político entre os educadores foi substituído pelo debate sindical, importante para a categoria, mas insuficiente para responder aos desafios da Educação. A Escola é a instituição pública de maior capilaridade em todo o país e, portanto, a que tem melhores condições de articular uma grande mobilização nacional em defesa do conhecimento e da emancipação.

* Professor, secretário de Educação Profissional do MEC

Fonte: Diário Catarinense (SC)

[Em uma conversa no ônibus, uma mãe conta que a filha havia soltado uma bomba na escola. Os pais foram chamados pela direção e, para se vingar, a adolescente de 15 anos rasgou as cortinas da escola. Num outro dia, a menina foi buscar o passe escolar e o diretor disse que só entregaria para o responsável, afinal, ela não assistia às aulas. Ao comparecer mais uma vez na escola, o pai foi comunicado que sua filha tinha mais de 500 faltas e, portanto, já estava retida.

Além disso, a mãe ainda contou situações em que era xingada pela filha, disse que a adolescente não ajudava com as tarefas domésticas, ficava o dia inteiro na rua e que não tinha horário para voltar. Após contar tudo isso ao colega, a mãe se perguntou: "O que eu posso fazer? Vou deixar ela andar pelada na rua? Ela é uma playboyzinha sem ser, porque não tem dinheiro. Todo mundo arrumado, com roupa de marca, e vou deixar ela andar de qualquer jeito?".

Essa história ilustra muito bem como a ausência de estrutura familiar é o principal motivo da falta de interesse dos jovens pelos estudos, sem considerar tantas outras consequências. Pais que trabalham muito para sustentar muitos filhos, pais viciados, pais despreparados, pais que também não foram incentivados... Seja qual for a razão, falta de tempo ou de interesse, os pais não controlam o que seus filhos fazem durante o dia, e nem a noite. Eles não perguntam como foi a aula, o que o filho aprendeu, e, muito menos, se há lição de casa.

Em paralelo, há a culpa, que impede que o pai castigue seu filho mesmo com a certeza de que ele cometeu (ou está cometendo) um erro. Culpa pela falta de tempo, pela fraqueza de preferir as drogas, pela certeza de que poderia estar fazendo mais.

Sem punição, o "não" tão necessário, a criança ou adolescente busca as mais diversas formas de chamar a atenção e garantir, ao menos, alguns gritos por dia.]

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